A expectativa é alta para o confronto decisivo entre Atlético-MG e Independiente Del Valle, válido pela semifinal da Conmebol Sul-Americana. Agendado para esta terça-feira, às 21h30 (horário de Brasília), o palco do embate será o Equador, e a partida promete não apenas emoções pelo peso da competição, mas também um reencontro carregado de história. O meia Juan Cazares, figura conhecida da torcida alvinegra, estará em campo vestindo a camisa do time equatoriano, enfrentando pela terceira vez o clube onde viveu momentos de glória e, por vezes, de controvérsia.
O Del Valle, atual equipe de Cazares, assegurou sua vaga nesta fase da Sul-Americana após superar o Once Caldas em uma disputa de pênaltis eletrizante. Do lado brasileiro, o Atlético-MG chega para este desafio fora de casa com um retrospecto preocupante no Campeonato Brasileiro, onde conquistou apenas um dos últimos nove pontos disputados longe de seus domínios, um dado que certamente adiciona uma camada de cautela à equipe do Galo, que buscará reverter essa tendência em terras estrangeiras.
A trajetória de Cazares com a camisa do Atlético-MG é extensa e memorável. Contratado no início de 2016, o talentoso jogador equatoriano permaneceu em Belo Horizonte por quatro temporadas e meia, deixando sua marca em 203 partidas oficiais. Durante esse período, balançou as redes 41 vezes e distribuiu 31 assistências, números que o consolidaram como um dos protagonistas do time. Sua passagem pelo clube mineiro foi coroada com a conquista de dois Campeonatos Mineiros, solidificando seu nome na história recente do clube e na memória dos torcedores atleticanos.
Além de sua marcante passagem pelo Atlético-MG, o currículo de Cazares é vasto, incluindo atuações por diversos clubes de renome nacional e internacional. Antes de retornar ao Independiente Del Valle, o meia defendeu equipes como River Plate, Barcelona SC, Banfield, Corinthians, Fluminense, Metalist, Independiente, América-MG, Santos e Paysandu, evidenciando uma carreira rica em experiências e desafios por diferentes ligas e estilos de jogo, o que demonstra sua adaptabilidade e persistência no futebol de alto rendimento.
A Chegada Conturbada e a Disputa Internacional por Cazares
A contratação de Juan Cazares pelo Atlético-MG, em 2016, não foi um processo simples e gerou uma disputa jurídica que se estendeu por anos. Após sua transferência do Independiente Del Valle para o clube mineiro, uma questão inesperada surgiu, envolvendo o Banfield, da Argentina. O time argentino alegava ter prioridade na aquisição do meia, devido a um acordo de empréstimo anterior, e levou a disputa para a FIFA. Este imbróglio jurídico se arrastou por anos, gerando incertezas sobre o futuro do jogador e possíveis indenizações a serem pagas pelo Galo. Somente em 2020, o Atlético-MG obteve uma vitória definitiva nos tribunais esportivos, confirmando a legalidade da negociação e evitando qualquer pagamento ao clube argentino. Esse episódio, embora tenso, mostrou a determinação da diretoria atleticana em ter o atleta e o valor que enxergava em seu futebol desde o primeiro momento, superando obstáculos burocráticos para contar com o talento do equatoriano.
O Maestro dos Gols Inesquecíveis e Lances de Brilho no Galo
Desde suas primeiras aparições com a camisa alvinegra, a qualidade técnica de Cazares se mostrou evidente, cativando a torcida e impressionando companheiros de equipe, que frequentemente o elogiavam como um “craque”. O meia equatoriano não era apenas um exímio passador, mas também um finalizador preciso, responsável por uma série de gols memoráveis que ainda ecoam na memória dos atleticanos. Em 2016, contra o Botafogo, ele demonstrou sua frieza ao encobrir o goleiro em um lance de inteligência pura, mostrando sua visão de jogo apurada. No ano seguinte, em um clássico contra o Cruzeiro, e em uma partida decisiva da Conmebol Libertadores contra o Godoy Cruz, Cazares voltou a brilhar, consolidando sua reputação de jogador decisivo, capaz de desequilibrar confrontos importantes. Suas pinturas se estenderam por outras competições, como a Copa do Brasil de 2018, onde marcou um belo gol contra o Botafogo-PB, e no Campeonato Brasileiro do mesmo ano, com um chute potente no ângulo contra o Bahia. Em 2019, contra o Flamengo, o meia exibiu categoria para balançar as redes, demonstrando sua capacidade de aparecer em momentos cruciais e contra adversários de peso, sempre com a habilidade de um artilheiro.
Entre a Genialidade e as Manchetes Polêmicas de Cazares
A passagem de Cazares pelo Atlético-MG foi marcada por uma dualidade evidente: a genialidade em campo, que encantava a torcida, aliada a uma série de incidentes fora dele que, por vezes, ofuscaram seu desempenho. O atleta colecionou polêmicas que geraram manchetes e debates. Em outubro de 2017, um atraso para o treinamento resultou em uma punição inusitada: o jogador teve que se concentrar sozinho, uma situação que ele mesmo compartilhou nas redes sociais, gerando repercussão. Esse não foi um caso isolado, e atrasos pontuais se repetiram em outros momentos de sua carreira no Galo. Em 2019, um desentendimento com o então companheiro Luan, após uma brincadeira de mau gosto sobre uma cobrança de falta, gerou um clima tenso no vestiário, exigindo uma posterior reconciliação para manter a harmonia do grupo. Contudo, os episódios mais graves ocorreram em plena pandemia de Covid-19, em 2020. Primeiro, foi flagrado jogando uma “pelada” com outros atletas, desrespeitando as medidas de isolamento social. Semanas depois, mesmo após ser diagnosticado com o vírus, promoveu uma festa em seu condomínio, levando a denúncias de vizinhos e multas por descumprimento das normas sanitárias. No mesmo ano, sua carteira de habilitação foi apreendida em uma blitz por excesso de pontos, e ele ainda protagonizou um vídeo polêmico vestindo uma camisa com provocações ao rival Cruzeiro, em referência à famosa frase “Fala Zezé”, o que reacendeu a rivalidade e gerou discussões entre as torcidas.
O “Gol Que Pelé Não Fez”: A Obra-Prima Inesquecível de 2016
Entre tantos lances de destaque e momentos de brilho, um em particular se eternizou na memória da torcida atleticana e do futebol brasileiro, demonstrando a capacidade única de Cazares. Na partida de volta da final da Copa do Brasil de 2016, contra o Grêmio, na Arena gremista, Cazares protagonizou um momento de pura genialidade e audácia. Nos acréscimos do segundo tempo, com o Galo em desvantagem no placar agregado, o meia percebeu o goleiro adversário adiantado e, sem hesitar, arriscou um chute de muito antes da linha do meio-campo. A bola, em trajetória perfeita, encobriu o arqueiro e morreu no fundo das redes. Foi um gol de rara beleza e audácia, frequentemente comparado ao famoso gol que Pelé quase marcou da intermediária na Copa do Mundo de 1970, um feito que muitos consideram o “gol que Pelé não fez”. Este lance não apenas demonstrou a visão de jogo e a técnica apurada de Cazares, mas também se tornou um dos gols mais icônicos de sua carreira e da história recente do Atlético-MG, celebrando sua capacidade de surpreender e encantar em momentos de grande pressão.
Um Legado de Talento, Irregularidade e Confiança no Futebol
Apesar de sua capacidade de protagonizar lances incríveis e decidir partidas com maestria, Cazares também convivia com a irregularidade, um ponto frequentemente questionado por torcedores e pela imprensa especializada. Em 2019, ao ser indagado sobre essa oscilação de desempenho, o próprio jogador ofereceu uma resposta perspicaz, que encapsulou sua visão sobre o futebol de alta performance e a dificuldade de manter um nível constante. “A gente faz 70 jogos no ano. Se eu consigo manter 70 jogos do mesmo nível, eu estou no Real Madrid”, afirmou o meia, indicando que a excelência contínua é um privilégio de poucos no esporte mundial. Essa declaração, embora soasse como uma autoavaliação sincera, também revelava a consciência do atleta sobre seus altos e baixos, e a intensidade exigida para se manter em alto nível ao longo de uma temporada. Sua trajetória no Atlético-MG, portanto, é um mosaico de momentos de puro brilho, gols inesquecíveis e lances que geraram debates acalorados, mas que, inegavelmente, deixaram uma marca profunda na história do clube alvinegro e na memória da torcida.

Escritor especializado em cobrir notícias sobre o mundo do futebol. Apaixonado por contar as histórias por trás dos jogos e dos jogadores







