A jornada de um atleta de futebol é repleta de desafios, sacrifícios e superações. Para o volante Newton, que hoje ganha destaque com a camisa do Botafogo, o caminho até os gramados profissionais foi pavimentado com uma determinação férrea, que o levou a desempenhar funções árduas e inesperadas durante um dos períodos mais conturbados da história recente: a pandemia de Covid-19. Em 2020, com o futebol paralisado e as dificuldades financeiras dos clubes se acentuando, Newton se viu obrigado a buscar alternativas para garantir o sustento próprio e de sua família, evidenciando a resiliência que o molda como profissional e indivíduo.
O Desafio da Pandemia e a Realidade do Trabalho Braçal
No ano de 2020, enquanto defendia as cores da Jacuipense, clube do futebol baiano, Newton, então com 20 anos, viu seu sonho de se firmar no esporte ser abruptamente adiado. A paralisação das atividades em decorrência da pandemia trouxe consigo um cenário de incerteza financeira para muitas agremiações. A Jacuipense, em particular, enfrentou dificuldades para honrar seus compromissos com os jogadores, o que levou à interrupção dos pagamentos. Morando com sua mãe e diante da necessidade premente de prover o sustento familiar, Newton tomou a difícil decisão de buscar um trabalho com carteira assinada, afastando-se temporariamente dos campos.
A oportunidade surgiu através de um amigo, cujo pai era encarregado em uma empresa de obras. Newton aceitou o convite para trabalhar no local, uma escolha que o afastou de sua paixão, mas que era essencial para a subsistência. “Foi complicado”, revelou o jogador em uma entrevista exclusiva. “Eu ainda estava atuando pela Jacuipense e morava com a minha mãe. E chegou um momento que pararam de pagar e começou a faltar as coisas em casa. Chamei a minha mãe para conversar e falei: ‘Mãe, acho que vou começar a trabalhar'”. A nova rotina era árdua: transportar peças de contêineres, no braço, ao lado de seis colegas, sob o sol escaldante de Salvador. Cada amanhecer trazia consigo a reflexão sobre o rumo de sua carreira, mas também a esperança latente de um retorno ao futebol.
A Virada e a Força da Motivação Familiar
Apesar da dedicação ao novo emprego, o coração de Newton permanecia nos gramados. A cada dia, ele mantinha o celular sempre à mão, pendurado ao uniforme, na esperança de receber a tão aguardada ligação ou mensagem que anunciaria a retomada das atividades no clube. Essa expectativa ansiosa se concretizou em um momento decisivo. “Um dia o diretor da Jacuipense me liga e diz que os treinos voltariam: ‘Pode se apresentar que você vai estar no profissional de novo'”, relembrou Newton, com a voz embargada pela emoção. A notícia foi um bálsamo, a confirmação de que seu sonho não estava extinto.
A decisão de deixar o trabalho braçal para retornar aos treinos foi tomada com um misto de alívio e felicidade. “Larguei a peça (do contêiner), fui na sala da coordenação e falei que teria que sair para me apresentar no clube. Ali, eu me vi totalmente feliz. Ainda tinha esperança dentro de mim, mas era difícil – eu estava vivendo outra realidade”, confidenciou. Após receber o salário proporcional aos dias trabalhados e contribuir para as despesas de casa, Newton mergulhou de volta em sua trajetória no futebol. Ele reconhece que essa experiência extramuros do esporte foi crucial para a valorização de cada passo dado em sua carreira profissional. A adversidade se transformou em combustível.
“Eu pensava negativo e positivo, e em tudo que eu já tinha passado, com meus irmãos e minha mãe, que sempre me deram força. Foi a forma que virou um combustível de motivação”, afirmou, ressaltando a importância fundamental do apoio familiar. “Sentimento de motivação total. Fico emocionado. Foi um momento muito difícil na minha vida. Para mim foi muito importante. Se eu não tivesse passado por tudo que passei, hoje eu não estaria aqui da forma que eu sou. Só gratidão a Deus por tudo isso.” A força emana da sua base, da sua família, que sempre esteve ao seu lado nos momentos de maior vulnerabilidade.
Inspiração em Danillo e a Conquista do Botafogo
A trajetória de Newton até o Botafogo é marcada por tentativas e persistência. Antes de chegar ao clube carioca, ele chegou a realizar testes em equipes tradicionais como Bahia e Vitória, mas não obteve aprovação. Sua entrada no mundo do futebol profissional se deu em 2019, aos 18 anos, nas categorias de base da Jacuipense. Antes disso, Newton aprimorava suas habilidades em campos de várzea e complementava sua preparação física com treinos autônomos na praia e em academias de bairro, demonstrando uma autodisciplina notável desde cedo.
Curiosamente, Newton e Danillo, outro volante do Botafogo, compartilham as mesmas origens periféricas de Salvador. Ambos cresceram em bairros vizinhos, a poucos minutos de distância um do outro. Newton acompanhou com admiração a ascensão de Danillo, que em 2018 foi contratado para as categorias de base do Palmeiras. “Conheci (pessoalmente) o Danillo depois, mas tínhamos muitos amigos em comum. Mas eu pensava: ‘Pô, Danillo que é daqui, pertinho, conseguiu. Está lá no Palmeiras, foi campeão’. Só serviu de motivação porque, quando você vê um cara próximo a você vencendo, isso te dá combustível para você querer vencer também. Fiquei muito feliz”, contou Newton.
Hoje, os dois volante disputam posição no elenco alvinegro, dividindo espaço com Marlon Freitas e Allan. Danillo, que chegou ao clube em julho, enfrentou lesões, mas está próximo de retornar aos gramados. Apesar da concorrência interna, que é natural e saudável em um clube de ponta, Newton demonstra companheirismo. “Estamos sempre conversando e, infelizmente, ele sentiu, mas acho que já está para voltar. É um cara que vai ajudar muito a gente, foi contratado para ajudar. Queremos que ele volte logo para nos ajudar em campo”, declarou.
Um Ano de Consolidação e Sonhos Realizados
O ano de 2024 tem sido especial para Newton no Botafogo. O volante tem conquistado espaço e mostrado seu valor em campo, respondendo à confiança da comissão técnica e da diretoria. Essa consolidação profissional vem após anos de trabalho árduo, persistência e superação de adversidades. A oportunidade de vestir a camisa de um clube de tamanha expressão nacional é a materialização de um sonho cultivado desde a infância, um sonho que quase foi abandonado em momentos de extrema dificuldade.
A experiência vivida durante a pandemia, quando precisou alternar entre o sonho de ser jogador e a dura realidade do trabalho braçal, moldou o jogador que Newton é hoje. A gratidão por estar no Botafogo e a consciência do quão longe chegou são palpáveis em suas declarações. Ele relembra com carinho e emoção os momentos que o impulsionaram, a força que encontrou em sua família e a esperança que nunca o abandonou. Agora, com a carreira em ascensão, Newton segue focado em contribuir para os objetivos do Botafogo, honrando cada sacrifício feito em sua jornada e a força que o impulsiona a cada lance em campo.

Escritor especializado em cobrir notícias sobre o mundo do futebol. Apaixonado por contar as histórias por trás dos jogos e dos jogadores







