O Liverpool atravessa um momento de profunda instabilidade na Premier League, acumulando uma sequência preocupante de quatro derrotas consecutivas na competição. Essa marca negativa não era vista desde 2021 e acende um sinal de alerta no clube, que manteve sua estrutura principal com o técnico, o craque Mohamed Salah, e realizou investimentos massivos na janela de transferências, desembolsando cerca de 490 milhões de euros, um recorde para o clube. A equipe, que outrora exibia solidez e autoridade, agora se vê em uma posição delicada na tabela, distanciando-se da briga pela liderança.
### A Crise na Defesa: Um Ponto de Inflexão
A vulnerabilidade defensiva tem se mostrado o calcanhar de Aquiles do Liverpool nesta temporada. A equipe já sofreu 21 gols em apenas 14 partidas, um número alarmante que se agrava pelo fato de ter sido vazada em nove jogos consecutivos. Essa fragilidade impede que o time dispute as primeiras posições, como o próprio técnico reconheceu: “Não estamos brigando pela liderança porque sofremos muitos gols. Se você faz dois gols num jogo fora de casa, deveria ser suficiente para vencer… Mudamos bastante durante o verão, acho que não é surpresa que as coisas possam acontecer assim. É sempre um caminho um pouco acidentado. Mas eu não esperava que acontecesse com quatro derrotas seguidas.” Essa declaração expõe a frustração com a inconsistência defensiva, mesmo com os esforços ofensivos. A necessidade de tempo para a adaptação de reforços importantes no setor de ataque, como Aleksander Isak, Florian Wirtz e Hugo Ekitiké, é compreensível, mas a falha primária reside na retaguarda.
### A Ausência de Alexander-Arnold e a Desconexão Tática
Um dos fatores cruciais para a fragilidade defensiva do Liverpool tem sido a ausência de Trent Alexander-Arnold. Embora não seja um defensor por excelência, sua saída do time gerou uma desconexão notável na construção de jogo e na manutenção da posse de bola. Alexander-Arnold, com sua visão de jogo e capacidade de ditar o ritmo, era peça fundamental para o equilíbrio da equipe, raramente se aventurando até a linha de fundo adversária, mantendo sua posição na lateral direita com solidez.
Em seu lugar, Jeremie Frimpong, com características mais agressivas e de ponta, tem enfrentado dificuldades de adaptação e problemas físicos, o que tem levado à escalação de Connor Bradley, um jovem com um perfil de jogo ainda distinto. Os mapas de calor dos três jogadores, analisados em relação à temporada 2024/25, revelam essa diferença de atuação e posicionamento, evidenciando a complexidade de substituir um jogador com as especificidades de Alexander-Arnold. Para piorar a situação, em certos momentos da temporada, o técnico Arne Slot precisou improvisar Szoboszlai na lateral direita, uma posição distante de sua vocação natural como meia ou ponta. Essa movimentação tática gera uma cascata de problemas, afetando o posicionamento de jogadores cruciais como Mohamed Salah e Gravenberch, que em outras temporadas foram pilares na recomposição e na criação.
### O Impacto de Gravenberch e a Busca por Equilíbrio
O mapa de calor de Ryan Gravenberch nesta temporada demonstra claramente como o lado direito defensivo se tornou uma área de maior preocupação, mesmo que, teoricamente, ele mantenha sua função original de primeiro homem de meio de campo. Essa mudança, imposta pelas circunstâncias táticas e pela necessidade de cobrir as lacunas, sugere que o volante holandês tem arcado com responsabilidades defensivas ampliadas, o que pode ter um impacto em seu desempenho geral e na fluidez do meio de campo. A necessidade de jogadores experientes e taticamente disciplinados na defesa se torna cada vez mais evidente, especialmente quando se leva em conta a forma como a equipe tem sofrido gols. A busca por um equilíbrio entre a vocação ofensiva e a segurança defensiva é um desafio premente para o comandante.
### A Queda de Produção de Salah e a Adaptação dos Novos Rostos
Paralelamente às questões defensivas, a má fase de alguns jogadores-chave tem contribuído significativamente para o momento turbulento do Liverpool. Mohamed Salah, o grande ídolo e referência do clube na última década, tem apresentado uma queda notável em sua produção. Com 4 gols e 3 assistências em 13 jogos na temporada, seus números são significativamente inferiores aos da temporada anterior (8 gols e 7 assistências no mesmo recorte em 2024/25). Nos últimos quatro jogos da Premier League, período em que o time acumulou derrotas, Salah desperdiçou um número considerável de oportunidades claras de gol, evidenciando uma falta de pontaria e confiança. Essa queda na performance do principal atacante é um reflexo, em parte, da desconexão geral da equipe, que dificulta a adaptação e o brilho dos novos contratados. Jogadores como Kerkez, Aleksander Isak e Florian Wirtz, que tiveram atuações destacadas em suas equipes anteriores, ainda buscam o ritmo ideal no Anfield, sofrendo com a falta de entrosamento e a instabilidade tática.
### A Busca por Saída e a Consciência Coletiva
A reflexão sobre a crise é unânime entre os jogadores. “É difícil dizer. O fato é que não conseguimos não sofrer gols por nove jogos. É fácil culpar uma pessoa em particular, mas é um coletivo. Temos que nos olhar no espelho. Tenho certeza de que sairemos dessa. Tentaremos melhorar. Não é que não estejamos fazendo nada nos treinos ou nos bastidores, mas o momento é difícil. Precisamos uns dos outros. Precisamos nos apoiar. Precisamos que as pessoas que comemoraram conosco na temporada passada estejam conosco ainda mais agora”, desabafou um dos jogadores. Essa fala demonstra a consciência de que a responsabilidade é coletiva e a necessidade de união para superar este período adverso. Atualmente, o Liverpool figura na sexta posição da tabela de classificação com 15 pontos, a quatro de distância do líder Arsenal. O próximo desafio da equipe será contra o Aston Villa, em mais uma oportunidade de reverter o quadro negativo e reconquistar a confiança da torcida.

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