Em um universo onde a rivalidade entre Flamengo e Santos transcende gerações, um nome menos falado, mas de importância histórica, ressurge: Wilson Gomes, o Samarone. O ex-meia, que teve uma passagem marcante pelo futebol carioca, ostenta um feito singular: o autor do primeiro gol do Flamengo contra o Santos em um Campeonato Brasileiro. Essa façanha ocorreu em 12 de setembro de 1971, no templo do futebol brasileiro, o Maracanã, selando a vitória rubro-negra por 1 a 0 e gravando seu nome na memória afetiva dos torcedores flamenguistas.
Samarone: A Trajetória de um Meia Habilidoso
A carreira de Samarone é tecida com fios de talento e passagens por clubes de peso. Natural de Santos, ele deu seus primeiros passos no futebol profissional pela Portuguesa Santista, onde rapidamente se destacou. Foi com a camisa da equipe de sua cidade natal que ele protagonizou um momento épico em 1964, marcando o gol decisivo que garantiu o acesso à elite do Campeonato Paulista, um feito que o imortalizou entre os torcedores locais. Sua habilidade com a bola nos pés, dribles desconcertantes e precisão nos chutes o tornaram um jogador requisitado no cenário nacional.
No entanto, foi no Rio de Janeiro que Samarone verdadeiramente se consagrou, vestindo a lendária camisa do Fluminense. Entre 1965 e 1971, ele se transformou em ídolo tricolor, conquistando o Campeonato Carioca de 1969 em uma memorável final contra o próprio Flamengo. No ano seguinte, em 1970, liderou a equipe na conquista da Taça de Prata, competição que tinha o status de Campeonato Brasileiro à época, reafirmando seu status de craque. Sua versatilidade e visão de jogo o posicionavam como um meio-campista completo, capaz de desequilibrar partidas e orquestrar o ataque.
O Início da Jornada Rubro-Negra e o Gol Histórico
O ano de 1971 reservava um novo capítulo na carreira de Samarone. Após um início de temporada aquém das expectativas para o Flamengo, a diretoria rubro-negra buscou reforços para qualificar o elenco. Samarone, que havia deixado o Fluminense no início daquele ano, foi contratado junto ao Corinthians. Sua estreia com a camisa do Flamengo aconteceu de forma peculiar: ele se juntou à delegação em Salvador, na véspera da partida contra o Bahia pelo Campeonato Brasileiro, sem sequer ter tido a oportunidade de treinar com seus novos companheiros. Contudo, a familiaridade com o esporte e as amizades preexistentes permitiram que ele rapidamente se adaptasse.
O primeiro gol com a nova camisa veio em um empate contra o Grêmio, mas foi na rodada seguinte que Samarone inscreveu seu nome na história do confronto contra o Santos. Em 12 de setembro de 1971, no Maracanã lotado, ele balançou as redes contra um time santista considerado uma potência, o “timaço” de que Samarone se recorda. “Um gol histórico contra aquele timaço do Santos. Deixei no chão o Ramos Delgado. Esses são jogos que ficam marcados, gol muito bem elaborado. O Maraca lotado, o time estava redondinho”, relatou o ex-meia, com a emoção de quem revive um momento inesquecível. A jogada, um lance de pura genialidade, foi a cereja do bolo em uma partida que reafirmou a importância do Flamengo no cenário nacional.
Samarone e a Sombra do Futuro Ídolo: A Camisa 10
Curiosamente, a passagem de Samarone pelo Flamengo coincide com os primeiros passos de um dos maiores ídolos da história do clube: Arthur Antunes Coimbra, o Zico. Nos primeiros anos da década de 1970, coube a Samarone a honra de vestir a camisa 10, o número que se tornaria sinônimo de excelência e genialidade no futebol rubro-negro. Na época, Zico ostentava a camisa 9, ainda em fase de afirmação e desenvolvimento.
Samarone relembra com carinho a sinergia que se estabeleceu entre ele e o jovem talento. “Esse time precisava de um homem de ligação. Um homem que fizesse a ligação entre a defesa e o ataque, para fazer a criação. Eles tinham o Zico com a número 9 e precisavam de um 10. Eu chego e encaixo direitinho. Acredito que o Zico tenha aprendido um pouco comigo”, comentou Samarone, em uma declaração que demonstra humildade e visão de jogo. Ele revela ter aconselhado Zico a adotar um estilo mais moderno, saindo da posição de centroavante estritamente posicional para atuar como um criador de jogadas, algo que, segundo ele, pode ter contribuído para a evolução do futuro camisa 10.
Um Gol Marcante e os Desafios da Temporada
Além do gol histórico contra o Santos, Samarone elege outro tento como especial em sua trajetória flamenguista. Foi contra o Palmeiras, em uma vitória por 2 a 1, data que coincidiu com o nascimento de seu segundo filho, Fabrício. A emoção da paternidade, somada à alegria do gol, tornou a partida ainda mais memorável. Contudo, a temporada de 1971 não foi coroada com títulos para o Flamengo. Samarone lamenta a ausência de três jogadores fundamentais para a equipe, convocados para o Pré-Olímpico: Fred, Aloísio e o próprio Zico. “Infelizmente saem esses três jogadores que estavam encaixados e a gente não classifica para a parte final. O time estava um conjunto”, desabafou o ex-meia, demonstrando a frustração com o desfecho da campanha.
Apesar dos percalços, Samarone guarda um profundo afeto pelo clube e pela torcida. “Foi sensacional jogar no Flamengo. O carinho que essa torcida teve comigo foi demais. Foi muito legal, eu era ídolo no Fluminense e me tornei ídolo novamente no Flamengo”, declarou, ressaltando a reciprocidade do sentimento. A revista Placar de outubro de 1971, inclusive, ecoou esse sentimento, destacando o retorno de Samarone ao status de ídolo no Rio de Janeiro.
O Fim da Passagem pelo Fla e o Legado
A saída de Samarone do Flamengo foi marcada por divergências com o técnico da época, Zagallo. Em entrevistas anteriores, o ex-meia expressou não concordar com as estratégias táticas do treinador, que, em sua visão, exigiam um excesso de funções, extrapolando a sua função primordial de criação. Essa desavença teve raízes em sua saída do Fluminense, quando Zagallo também comandava a equipe tricolor. Samarone defendeu as cores rubro-negras entre 1971 e 1973, período em que sua habilidade continuou a encantar os torcedores.
A imprensa da época celebrava seus “dribles secos”, a “formidável proteção de bola” e a potência de seus chutes, que lhe renderam o apelido carinhoso e imponente de “Os canhões de Samarone”, uma alusão ao clássico filme “Os canhões de Navarone”. Nascido em 1946, o “Diabo Loiro” teve passagens por Portuguesa e Bonsucesso antes de encerrar sua carreira nos gramados. Formado em Engenharia Civil, Samarone, aos 79 anos, reside em Cascavel, no Paraná, guardando consigo as memórias de uma carreira vitoriosa e repleta de momentos marcantes no futebol brasileiro. Pelo Flamengo, ele disputou 28 jogos e marcou quatro gols, deixando sua marca indelével na história do clube, em especial no confronto contra o Santos.
Para o reencontro entre Flamengo e Santos, neste domingo, às 18h30, no Maracanã, a expectativa da torcida flamenguista recai sobre o atual camisa 10, Arrascaeta. O uruguaio, artilheiro do time na temporada e no Campeonato Brasileiro, é a principal esperança de gols e de uma nova vitória rubro-negra sobre o Peixe. A história se repete, com a camisa 10 sendo o símbolo da criação e da esperança em mais um capítulo dessa rivalidade centenária.

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