O técnico Luis Zubeldía, em sua rápida ascensão no comando do Fluminense, tem vivido um turbilhão de emoções e desafios em menos de dois meses no clube. A jornada tem sido marcada por uma intensa agenda de jogos, com deslocamentos frequentes, alternando momentos de euforia com outros de apreensão. Apesar de sua juventude, com 44 anos de idade, Zubeldía ostenta uma bagagem de duas décadas dedicadas à profissão de treinador, uma trajetória que começou cedo, aos 24 anos, como membro de uma comissão técnica profissional no Lanús, na Argentina. Essa vivência acumulada lhe confere a serenidade necessária para navegar pelas oscilações inerentes ao mundo do futebol.
A paixão avassaladora pela arte de comandar equipes é o combustível que impulsiona Luis Zubeldía, levando-o a aceitar os sacrifícios que essa carreira exige. Em uma conversa exclusiva, o argentino revelou a dimensão do preço pago por sua dedicação: a distância dos pais, o distanciamento do crescimento deles e a inevitável sensação de que, a cada reencontro, eles já não são os mesmos. Contudo, ele ressalta que essa experiência extraterritorial, com a imersão em diversas culturas e o contato com um mosaico de perfis de jogadores e pensamentos distintos – sejam eles argentinos, uruguaios, brasileiros, equatorianos ou colombianos – o enriqueceu profundamente como indivíduo. A gestão de tantas individualidades, cada qual um universo particular, é reconhecida por ele como um desafio complexo, mas extremamente gratificante.
Um Talento Precoce Que Desviou do Gramado para o Banco de Reservas
Desde a infância em Santa Rosa, Luis Francisco Zubeldía demonstrava um talento inegável para o futebol. Com uma vocação natural para atuar como volante, suas habilidades o levaram a vestir a camisa da seleção argentina em categorias de base, participando de um Mundial Sub-17 e, posteriormente, da Sub-20. Sua descrição de si mesmo como jogador, “uma mescla de Hércules e Martinelli”, evoca uma imagem de força e dinamismo em campo. O desempenho pela Albiceleste chamou a atenção de gigantes do futebol, com o Boca Juniors despontando como um forte interessado. No entanto, o destino o reservou uma trajetória diferente, consolidada no Lanús, um clube que se tornou fundamental em sua formação, inclusive por influência familiar. Contudo, uma lesão no joelho esquerdo pôs fim prematuramente a uma carreira que prometia alcançar projeção internacional.
A transição de jogador a treinador, que poderia ter sido um período de grande sofrimento, foi gerida com notável agilidade. Apoiado pelo Lanús, Zubeldía trilhou o caminho rumo à área técnica, iniciando no time juvenil e logo ascendendo a auxiliar técnico do time profissional. A velocidade com que essa mudança ocorreu o impediu de “ter tempo para sofrer”, como ele mesmo relata. A lesão, que exigiu três anos de intensas recuperações cirúrgicas, o forçou a uma reflexão profunda. Apesar de ter seguido todos os protocolos médicos e de treinamento à risca, o corpo não respondia como esperado. Essa energia e dedicação que antes eram canalizadas para a recuperação como atleta foram, então, redirecionadas para a construção de sua carreira como treinador.
A Incursão Pelo Jornalismo e a Paixão Inabalável pelo Futebol
Curiosamente, o caminho de Zubeldía poderia ter sido outro, longe dos gramados e das táticas. A proximidade com o esporte o levou a considerar o jornalismo esportivo como uma alternativa profissional. Ele iniciou um curso de três anos na Argentina, com o objetivo de aprofundar seu entendimento sobre a dinâmica da imprensa e, em especial, os preceitos éticos da profissão. No entanto, a ausência de uma paixão genuína por escrever, pela televisão, pelas redes sociais ou pelo rádio o fez descartar essa possibilidade. Zubeldía compreendeu que a paixão é o ingrediente indispensável para o sucesso em qualquer área, e a sua residia, de forma inegável, no futebol.
Adaptação ao Rio de Janeiro e o Charme do Maracanã
A chegada de Zubeldía ao Fluminense se deu em 25 de setembro, e desde então, as 44 dias vividas no Rio de Janeiro foram intensamente focadas na rotina de trabalho, com poucas oportunidades para explorar a cidade. A média de uma partida a cada quatro dias exige um planejamento rigoroso e limita a disponibilidade para passeios. A expectativa é que a esposa e as filhas, ao chegarem, proporcionem momentos de lazer e descobertas pela capital fluminense. No entanto, um ponto turístico já ocupa um lugar especial no coração da família Zubeldía: o icônico Maracanã. Para o treinador, estar em “catedrais do futebol” como o Maracanã, o Morumbi (onde esteve no ano passado) e o Azteca (na Concachampions) é uma experiência de imenso significado para quem vive e respira o esporte. Embora admire a beleza do Pão de Açúcar e das praias cariocas, é o templo do futebol que exala um encanto especial para ele.
A adaptação ao Brasil, onde já dirigiu o São Paulo na temporada anterior, também passa pela questão idiomática. Zubeldía opta por conceder entrevistas em espanhol, mas faz um pedido constante para que todos se comuniquem com ele em português. Seja nas atividades no centro de treinamento, nas coletivas de imprensa ou no convívio diário, ele prefere ouvir a língua local para facilitar sua integração e aprendizado. Apesar de entender “tudo, ou quase tudo”, o treinador ainda não se sente plenamente seguro para se expressar fluentemente em português. Sua cautela é justificada pelo receio de cometer erros que possam ser mal interpretados ou disseminados rapidamente nas redes sociais. Ele busca a precisão em suas palavras e prefere se comunicar em seu idioma nativo para ter total controle sobre a mensagem transmitida, embora encoraje seus interlocutores a utilizarem o português em suas interações com ele.
Missões Cruciais e o Próximo Desafio Tricolor
Luis Zubeldía tem pela frente duas missões de grande relevância para o Fluminense. A primeira delas é garantir a classificação para a próxima Copa Libertadores da América através do Campeonato Brasileiro, um objetivo que, até o momento, parece estar sendo alcançado. A segunda tarefa, de igual importância, é preparar a equipe para a semifinal da Copa do Brasil, cujos confrontos contra o Vasco da Gama estão agendados para iniciar em 11 de dezembro. Enquanto isso, o foco no Brasileirão se volta para o próximo compromisso. Neste domingo, às 16h, o Tricolor enfrentará o Cruzeiro no Mineirão, em partida válida pela 33ª rodada da competição, com transmissão ao vivo pela Globo.

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